Dizem que é no final que começamos a lembrar, inevitavelmente, de como foi o começo. Bem, ultimamente tenho lembrado muito dos meus "começos", principalmente do meu começo aqui em João Pessoa. Eu sei que cada nova postagem desse blog está se tornando mais melancólica do que a anterior, mas é inevitável. É assim que tenho me sentido nos últimos dias.
Tenho muitos problemas. Tenho pouco tempo para resolver meus problemas.
E enquando fico tentando "pensar não pensando" nos meus problemas, vou me lembrando de cada coisa que estou deixando, esquecendo, alguns até perdendo. Não, não é agora que eu quero pensar "mas eu também vou ganhar muitas outras coisas". Agora eu quero simplesmente sorrir lembrando dos momentos engraçados que vivi aqui.
Quem diria que eu seria tão feliz aqui ? Eu não diria!
Lembro que quando soube que ia me mudar (no começo de 2003 - início do ensino médio - 15 anos), adorei a idéia. Sou Pernambucano, e como qualquer estudante do interior, sonhava em me mudar pra Recife pra estudar, ir pra universidade, criar raízes e depois voltar, eventualmente, para vez a família e uns amigos que ainda lembrarem do meu nome. Desde aquela hora, tudo já era diferente do que eu imaginava.
Primeiro, a notícia de que eu não iria pra Recife, e sim para outra capital, João Pessoa. Eu já conhecia a cidade, mas não tanto quanto Recife (onde já morei alguns anos), sem contar com o fato de que, maior parte da minha família estava em Recife. Primos, tios e tias, muitos amigos que também estavam mudando-se para a capital do estado. A explicação : com o PSS (novidade quase salvadora numa cidade do interior) eu teria mais chances de entrar no ensino superior, num curso que eu queria e, obviamente, numa universidade pública. No começo eu achei meio chato. Queria ir para onde meus amigos iam ! Tinha medo de não ter amigos, de não conhecer ninguém ( eu era muito tímido e, notadamente, depressivo ).
Lembro que, quando eu estava preparando as coisas para a mudança (eu, minha mãe e minha irmã) eu pensava "bem, qualquer coisa é melhor que essa maldita cidade". Ledo engano. Em poucos meses eu estaria chorando por NÃO estar naquela maldita cidade. Sentia falta das pouquíssimas coisas que eu amava e até de algumas que eu odiava. E aqui ... nossa, como eu odiava tudo aqui ! Tudo era ruim demais, difícil demais, triste demais, sozinho demais. Foi uma época difícil, considerando minha idade ( 15 anos ), minha total imaturidade e timidez, meus problemas com minha mãe e minha irmã.
Eu também lembro perfeitamente (e disso sim, lembro como se fosse ontem) quando eu estava no final das minhas primeiras férias (em julho de 2003), lá no interior, e dizia para as minhas primas que "eu sou a única pessoa que conheceu o inferno, saiu e teve que voltar". Todos viam minha agonia em voltar e tentavam me consolar, me insentivar, me motivar, e eu só pensava "porque tudo não pode ser mais fácil ?".
Provavelmente essa foi a última vez que eu tive problemas com João Pessoa. Claro que, ainda na adolescencia, tive muitos problemas e muitas raivas, mas nada que realmente tivesse motivos. Depois desse ano, eu já nem queria tanto ir para o interior ! Interessante que, enquanto eu mesmo lembro disso, fico pensando como eu consegui fazer a cidade passar de "inferno" a "paraíso" em apenas 1 ano ? Mas foi exatamente assim. Já no carnaval do ano seguinte (2004) eu passei aqui, em um retiro de carnaval. O fato de me aproximar tanto da igreja me ajudou muito na adaptação, principalmente por causa das amizades e das conversas nas horas tristes (e atrapalhou muito quando eu deveria ter estudado e preferia ir para a igreja, por achar que seria padre e a igreja era a minha verdadeira escola). Também lembro que, nas férias, fiquei muitíssimo agoniado, novamente no interior. Queria muito voltar, sentir o cheiro da cidade, andar pelas ruas do bairro (andar sem rumo sempre foi meu passatempo favorito), falar com os meus amigos ... Também acabo de lembrar de um detalhe muito interessante. Esse foi um ano bem "caracteristicamente adolescente" (2004). Hoje, quando eu lembro, tenho certeza que foi um dos melhores anos aqui. Fazia o segundo ano do ensino médio no GEO. Nem pensava tanto no vestibular (praticamente nada, na verdade) nem tinha problemas com a cidade. Meu maior problema, de fato, era meu nível escolar. Sempre fui um otimo aluno (e sempre achei importantíssimo que assim fosse), até mesmo no ano anterior, diante de tantos problemas. Naquele ano, porém, minhas notas estavam caindo e isso me incomodava profundamente - e por causa disso eu dizia todos os minutos e segundos que aquele era, sem dúvidas, o pior ano da minha vida - e disse isso até aprender que não existe nada 100% bom ou 100% ruim.
Na verdade, foi aí que começou um problema que deixou eternas marcas, a "baixa estima". Depois daquele ano, nunca mais me senti tão confiante como era antes (hoje estou bem melhor, claro, mas alguns anos atrás eu me achava completamente acéfalo, analfabeto, ignorante, desinformado e indigno de qualquer atenção ou elogio referentes a minha inteligência - não, isso não é drama. Claro que era um caso isolado. Nunca me achei feio ou antipático. No geral, esse era meu único grande defeito imutável).
Enfim. O tempo passou e eu amei a cidade cada dia mais. Eu ia cada vez menos para o interior. Arrumava desculpas, voltava mais cedo, ia mais tarde, passava menos tempo. Tudo era perfeito. Tinha amigos inseparáveis, tinha a namorada que amava e morava numa cidade linda, tranquila e acolhedora. Os problemas não pareciam mais tão difíceis como antes - e de fato, nunca mais foram - e tudo precisava apenas de paciência para ser solucionado.
Minhas maiores alegrias e tristesas foram aqui. Meus melhores amigos moram aqui. As pessoas que eu mais admirei e segui estão aqui. Mas eu, eu não estarei mais aqui em alguns meses. Paro e penso "será que vai ser tão difícil como foi ? Será que depois de alguns anos eu não vou mais sair de lá ? Será que farei novos amigos inseparáveis e encontrarei novas pessoas admiráveis ? Será que vou rir mais alto e chorar mais forte ? Será, meu Deus, que eu vou conseguir ?". Sinceramente, acho que sim. Acho que se outros conseguem (e se até mesmo eu já consegui uma vez), nada me impede de realizar esse magnífico feito - a confortável adaptação ao desconhecido.
Amanhã será outro dia, e será menos um dia aqui. Tento olhar a praia, o mar, as pessoas ... sempre com olhos mais atentos, mais apurados. Daqui a pouco verei cada coisa aqui com menos frequência. No começo, provavelmente virei aqui 1 ou 2 vezes por mês, mas no fim, sei que virei aqui 1 ou 2 vezes por ano ... e o pior, eu vou achar que é o bastante ! Alguns amigos continuarão amigos, outros passarão por mim e não falarão nem "oi".
Eu aguento isso. Aguento porque sempre soube que aconteceria. Apesar de querer morrer aqui - e quero ainda voltar e morar aqui até o final da minha vida - sempre soube que teria que sair por uns tempos, nem que fosse para fazer mestrado ou doutorado. Aguento a dor, a saudade, as dificuldades, os problemas financeiros. Juro, aguento tudo com a cabeça levantada, confianto em mim - muito mais do que confiaria naquele ano pior/melhor - e sei que sairei vitorioso, por mais tempo que demore.
Meu medo está nas perguntas que me faço e que não tem resposta. Está na necessidade de prever o futuro e saber como vão ser as coisas. E principalmente, em imaginar a hora do "adeus", quando eu estarei dentro da carro da mudança, atravessando BR e me despedindo mentalmente daquela que foi e sempre será a cidade que me acolheu tão bem e que me fez tão feliz.
Não sei quem posso agradecer. Aos holandeses ? Aos portugueses ? Aos índios ? Ao próprio João Pessoa ? A Deus, provavelmente. Mas se alguém puder responder em seu nome - com uma procuração assinada, talvez - eu preciso mesmo dizer : Eu serei profundamente grato por tudo. Muito mais do que se possa imaginar. Fui/sou muito feliz aqui.
( E já que estou falando com Deus, tenho que aproveitar e pedir pra que em Campina Grande tudo seja, no mínimo, tão bom quanto pôde ser aqui. )
Espero que na minha próxima postagem eu possa falar de coisas mais alegres, como o emprego que estou precisando tanto ! Tô aceitando qualquer coisa, nessa altura do desespero. Até lavar o chão tá valendo, contanto que eu consiga o dinheiro pra me mudar e alugar um novo apartamento lá em Campina ( e estou pensando seriamente em me ajoelhar diante de Zarinha. Talvez agora que eu vou começar Letras* ela me contrate ). Isso sim seria uma boa notícia ! Meu tempo pra conseguir algum dinheiro está ficando cada vez menor ...
( Ao som de " cálice - Chico Buarque ")
*Letras, sim ! Mas é só por 1 período. Como todos sabem, eu sempre adorei ler e escrever, e cursar letras parece algo tão incrível e maravilhoso que resolvi ter essa sensação. Não se preocupem, não vou deixar Engenharia Elétrica. É só um período de " Letras - linguas clássicas " na UFPB. Começando em abril e terminando em agosto, imagino. Nada demais. Só pra ter o gostinho de cursar mesmo ( se minha mãe sonhar com isso um dia, eu posso me considerar deserdado e "desamado" para todo o sempre. rs. A maior raiva da vida dela é ser formada em letras - inglês ! hehehe).
xD
P.s.: Me perdoem pelos erros e pela postagem tão longa. Tinha muita coisa para escrever e como faz tempo que postei, achei que era necessário. Depois leio novamente e faço algumas correções, porque agora já é beeeem tarde.
Abraços já saudosos !!!
quarta-feira, 1 de abril de 2009
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1 Nexos ". Qual a sua opinião ?!:
Caro Hélder, posso imaginar o seu drama, pois deixei medicina no quarto ano para cursar... Letras. Como seguia minha vocação, acabei não dando muito importância aos comentários - alguns maldosos, como o de que eu ia morrer de fome. Houve até quem dissesse, para me intimidar, que Letras era curso de moças, como se língua e literatura tivessem a ver com prendas domésticas (que por sinal têm o seu altíssimo valor).
Felizmente resisti ao turbilhão contrário e me mantive fiel a mim mesmo. Hoje só de uma coisa me arrependo: não ter deixado mais cedo um curso para o qual não nasci e com o qual eu tinha pouquíssima afinidade. Estou contente e... continuo viril.
Um cordial abraço de
Chico Viana.
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